publicado em 04/07/2008
Por Fernando Almeida - presidente-executivo do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).
Sem energia não se desenvolve um país, nem se combate a miséria. Entretanto, a geração e o uso de energia não podem resultar em degradação ambiental e humana.
Caso as tendências atuais prevaleçam, os combustíveis fósseis - óleo, gás e carvão – serão a base da matriz energética no mundo e no Brasil neste século, induzindo um insustentável aumento dos chamados gases de efeito estufa (GEE), como o dióxido de carbono (CO2).
Esta tendência precisa obrigatoriamente ser alterada por mecanismos de controle das emissões, descarbonização da matriz energética mundial e uso mais eficiente dos recursos de forma a estabilizar e reduzir as emissões dos GEE.
De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2004), a concentração de CO2 na atmosfera, antes da Revolução Industrial, era próxima de 280 partes por milhão (ppm); no ano de 2005 a concentração esteve em torno de 379 ppm. Estima-se que os níveis de dióxido de carbono estão aumentando em volume, e já devem estar ultrapassando 430 partes por milhão nos dias atuais.
O objetivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima é o de estabelecer as diretrizes e condições para estabilizar os níveis dos gases de efeito estufa na atmosfera, impedindo um aquecimento superior a 2°C, com concentrações de CO2 superiores a 550 ppm, limite considerado “perigoso” ao sistema climático.
Os setores que demandam maiores preocupações e atenção são: geração de energia; agropecuária; indústria; moradia (em especial edifícios); transporte; e consumo.
Conseqüências
Os efeitos do aquecimento global já são notórios e tendem a aumentar. O aumento do nível do mar, maior ocorrência de secas, tempestades e furacões, como os furacões Katrina na região de Nova Orleans e Katarina no sul do Brasil, foram exemplos recentes. Os estudos científicos apontam algumas conseqüências do aumento da temperatura do planeta por ação do homem: perda da biodiversidade; redução das geleiras e elevação dos níveis dos oceanos, induzindo os chamados refugiados ambientais tanto nas áreas oceânicas por enchentes, quanto nas áreas de estuários devido à salinização da água por penetração da língua salina (inviabilizando a agricultura e utilização de água potável); aumento da ocorrência e intensidade de secas.
O IPCC, em seu 4º e último relatório, quantifica alguns prognósticos preocupantes. Se for mantida a tendência atual, chegaremos a 2080 com até 3,2 bilhões de pessoas enfrentando escassez de água, até 600 milhões escassez de alimentos e até 7 milhões sofrendo com as inundações costeiras.
Os refugiados ambientais poderiam alcançar um bilhão de seres humanos por volta de 2050, criando uma ameaça de repetição dos episódios como Darfurs, oeste do Sudão, onde, nos últimos anos, 200 mil pessoas foram mortas e 2 milhões expulsas de suas casas por razoes de conflitos étnicos-políticos, miséria e colapso dos serviços ambientais.
No Brasil, a recarga dos lençóis freáticos no Nordeste deverá ter uma redução drástica de 70%; no Sudeste as chuvas irão aumentar significativamente, prejudicando a agricultura e aumentando a intensidade e freqüência de inundações em cidade como Rio de Janeiro e S. Paulo. Na Amazônia, a seca de 2005 se mostra como um evento extremo de profundo impacto socioeconômico e ambiental. O IPCC também prevê intensas perdas de biodiversidade na região com aumento de 2oC, assim como a salinização da parte leste da floresta com a perda de água.
Baseado em dados da Unicamp e da Embrapa, os cenários para o agronegócio são também preocupantes. As culturas de café, arroz, feijão, milho e soja, perenes no Brasil, poderão ter sua área de cultivo reduzida à metade com a elevação da temperatura para 5,8º C nos próximos 50 anos. Neste cenário, o café desapareceria dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás sendo transferido para o Sul. No caso do arroz, a área plantada seria reduzida de 4,8 milhões de km2 para 3 milhões de Km2. Os impactos econômicos e sociais seriam significativos como desabastecimento, elevação de preço, desemprego, descapitalização de agricultores em toda a cadeia produtiva do agronegócio.
Rumo a uma economia de baixa intensidade no uso de carbono
Diante da dificuldade de se estabelecer mecanismo de aceitação global para lidar com a questão da energia e do clima, há uma forte tendência de que a descarbonização do setor produtivo seja regulada por iniciativas de âmbito nacional ou regional, com acordos bilaterais. As empresas já sofrem pressões da sociedade – com imposições legais ou do próprio mercado - para incorporar o tema em suas estratégias de negócio. Muitas empresas com visão de longo prazo, mesmo que estejam em países onde ainda não há limites legais, já adotam metas voluntárias.
No contexto geral, para uma sociedade chegar a 2050 com concentração inferior a 550 ppm de CO2 precisa cumprir algumas metas:
Nos cinco setores mencionados na introdução é possível descrever os rumos a serem seguidos:
Geração de Energia
As usinas para geração de energia são, em geral, de vida útil longa – de 40 a 60 anos. Logo, estes ciclos devem ser considerados. Entretanto, existem boas oportunidades nos países em desenvolvimento de instalar novas unidades já adaptadas ao conceito de baixa emissão de carbono, assim como substituir as antigas nos países desenvolvidos dentro desta mesma política.
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que será necessário um investimento em torno de US$ 20 trilhões até 2030 em infra-estrutura para atender a demanda de controle do aquecimento global.
O emprego da energia pelo usuário final, incluindo mudança de comportamento, é considerado um dos mais importantes fatores de eficiência energética. A diversificação e a descarbonização dos combustíveis, assim como políticas que incentivem investimentos em implantação de tecnologias já existentes voltadas para baixa emissão de CO2, devem ser imediatamente implementadas.
Tais tecnologias incluem uso limpo do carvão, com captura e armazenamento, última versão de geração em energia nuclear, energia solar e a base de hidrogênio. Finalmente, a renovação das malhas de distribuição com redução ou eliminação de perdas e inclusão de geração de energia descentralizada incorporada à rede.
Indústria
Buscar uma contínua evolução da eficiência energética por um lado, e, por outro, reduzir ao máximo a dependência em combustíveis fósseis. A indústria deve também pesquisar e desenvolver tecnologias inovadoras pouco intensivas em emissão de gases de efeito estufa, empregando-as de imediato nos paises em desenvolvimento para não repetir equívocos dos paises desenvolvidos.
Mobilidade
Incentivar a utilização de novos tipos de combustível, como biocombustível, eletricidade e hidrogênio, assim como a escolha adequada de veículos que incorporem tecnologias de controle dos GEE. O setor deve ainda estimular o uso destas tecnologias através de taxas e impostos. Nas auto-estradas da Califórnia, apenas os carros com motores híbridos (como o modelo Prios, da Toyota) podem transitar com um ocupante nas faixas seletivas, onde só é permitida a circulação de veículos com pelo menos dois ocupantes. Caso semelhante ocorre no centro de Londres, onde uma taxa de 8 libras é cobrada nos dias úteis excluindo os híbridos. Torna-se também necessária maior integração do transporte público ao privado.
Há ainda alguns procedimentos que induzem a redução do consumo de combustível e, conseqüentemente, as emissões: os veículos atuais devem ser conduzidos sem constantes acelerações e desacelerações que reduzem a eficiência em 33%, no limite de velocidade máxima econômica em torno de 80 Km/h; manter a pressão dos pneus dentro das especificações (caso contrário, o consumo pode registrar aumento de 20 a 30 % ); e fazer manutenção preventiva periódica (apenas um filtro de ar já saturado pode aumentar o consumo de combustível em 10%).
Edifícios
A iluminação pode consumir 80 % da energia de uma edificação. A simples troca de sistemas detectores de movimento aliada ao uso de lâmpadas florescentes determinam reduções significativas. O projeto incluindo aspectos de insolação, iluminação, arborização, aquecedores de alta eficiência e aquecimento solar agregam uma substancial redução no uso de energia.
Escolha do Consumidor
Algumas alternativas nesta área se referem ao consumidor em si ou às políticas públicas.
Devem-se criar mecanismos para induzir a remoção de subsídios que promovem padrões de consumo insustentável; informação aos consumidores sobre melhores práticas, rotulagem de produtos e sobre ciclo de vida; e padrões de performance de produtos, como os eletrodomésticos classificados por consumo de energia. Há também a necessidade de se criar taxas e incentivos a práticas de produção e consumo mais sustentáveis, e interferir na gestão de tráfego de produtos e serviços.
Conclusão
Há riscos e oportunidades relacionados ao aquecimento global. Devemos viabilizar as oportunidades, alterando os modelos de negócios e os padrões de desenvolvimento. Somente assim, o planeta poderá manter-se no caminho seguro para a vida, que chamo em meu livro “Os desafios da sustentabilidade – uma ruptura urgente” de zona de domínio de atração, conceito adaptável tanto aos ecossistemas quanto às instituições.
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