publicado em 04/07/2008
Por Fernando Almeida - presidente-executivo do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)
Desenvolvido no Brasil em escala industrial nos anos 70 para amenizar internamente a crise de abastecimento de petróleo, o etanol da cana-de-açúcar entra em cena agora como a mais nova vedete ambiental. Com a mesma intensidade com que ganhou projeção mundial como solução para conter a curva, ainda ascendente, da emissão de gases estufa, o nosso biocombustível líquido e renovável está no centro de uma grande polêmica global desencadeada por diferentes interesses políticos e econômicos.
Para aqueles que ainda duvidam da sua capacidade de produzir benefícios ambientais reais numa dimensão global, uma corrente científica cada vez mais significativa tem defendido a tese de que o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar tem nível de emissão de dióxido de carbono nulo ou próximo de zero, embora ainda não haja 100% de consenso sobre isso. Além de emitir menos quantidade de CO2 do que os combustíveis fósseis, o gás desprendido dos motores movidos a álcool seria inteiramente incorporado à biomassa,via fotossíntese, pela safra seguinte.
Uma das acusações que pesam sobre o etanol verde e amarelo é a justíssima preocupação com um novo ciclo de desmatamento acelerado, tal como aconteceu – e ainda acontece – com o boom de outras monoculturas estimuladas principalmente por demandas vindas do mercado externo. Torço para ver o tempo em que países, empresas e consumidores só comprarão produtos certificados, social e ambientalmente. Esse tempo de pessoas - físicas e jurídicas - esclarecidas, contudo ainda não chegou. A expansão da soja é o exemplo mais recente e significativo. No Mato Grosso a área plantada com soja aumentou 400% nos últimos dez anos, com alto grau de invasão de florestas, segundo estudo do GT Florestas do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (FBOMS).
Outra polêmica com potencial para transformar o etanol de herói a vilão, diz respeito a um possível desequilíbrio na oferta de alimentos. Os críticos alertam para um agravamento da fome nas regiões mais pobres e suspeitam que os ganhos econômicos oferecidos pelo novo mercado, irão ampliar indiscriminadamente a produção de culturas voltadas para o biocombustível em detrimento do plantio de grãos. Tal descompasso, segundo esses críticos, tornaria mais alto o preço dos alimentos tanto para a população como para a fabricação de rações. Motivações políticas e ideológicas à parte, esta visão deve ser contemplada, embora não possamos jamais esquecer que a fome do mundo não decorre da falta de produção de alimentos. Há sobras. O que existe é má distribuição e ausência de poder aquisitivo para parcela significativa da população.
Uma terceira preocupação, nem por isso menos importante, vem dos movimentos sociais. O modelo de relação trabalhista no processo de plantio e, principalmente, de colheita da cana-de-açúcar tem sido contestado com freqüência não é de hoje. São comuns as denúncias sobre as péssimas condições oferecidas aos trabalhadores e a utilização de mão-de-obra escrava nas regiões mais remotas. Muitas dessas denúncias são comprovadas por fiscais do Ministério do Trabalho.
Com o relógio do planeta correndo contra nós e um exército de miseráveis para alimentar, não podemos nos dar ao luxo de rejeitar a perspectiva de transformar o etanol em forte componente para reverter a curva do aquecimento global, e ao mesmo tempo ampliar o processo de inclusão social. Estamos frente a frente com uma oportunidade imperdível, e não foi somente sorte, foi também uma boa dose de talento genuinamente brasileiro. Nosso país desenvolveu tecnologia única no setor, tanto na produção do álcool como no aperfeiçoamento de motores compatíveis, tem clima e recursos hídricos propícios para o plantio de cana-de-açúcar e outras culturas que viabilizam técnica e economicamente a produção de etanol e óleos combustíveis de origem vegetal, e com dimensões continentais, dispõe de áreas para o plantio.
Diante de cenário tão positivo, o Brasil desponta potencialmente como liderança mundial nesta área, inclusive atuando como disseminador de tecnologia para estimular outras nações menos favorecidas a seguirem o mesmo caminho. Antes de abrir o champanhe, porém, devemos manter os pés no chão e buscar regras definidas para impedir a degradação dos ecossistemas, aprofundar mecanismos legais e práticas corporativas para preservar as relações trabalhistas e a manutenção do equilíbrio de mercado entre produção de biocombustível e de alimentos. A discussão para estabelecer essas regras não pode ficar de fora da agenda. Governo, empresas, ONG´s e sociedade civil organizada devem trabalhar juntos para uma gestão sustentável dos biocombustíveis, ou estaremos repetindo o mesmo erro de enriquecer poucos com o sacrifício de muitos. Sejam trabalhadores, sejam ecossistemas. Sem essa discussão e com a expansão do mercado global, corremos o risco de ampliar a destruição de florestas e reeditar a escravidão.
Se criatividade e competência não nos faltam, que não falte entendimento e vontade política. A transformação do etanol em commodity é uma oportunidade real de ganho social e econômico para o Brasil, e ambiental para todo o planeta. Não percamos a oportunidade de fazer isso direito.
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