publicado em 04/07/2008

Ética e Desenvolvimento Sustentável

Por Fernando Almeida - presidente-executivo do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)

Ética é o reconhecimento e prática de limites colocados nos indivíduos como membros de uma comunidade. No contexto da sustentabilidade, a ética amplia suas fronteiras para além da comunidade a que pertencemos, incluindo os recursos naturais – bióticos e abióticos – e seres humanos como um todo.

O paradigma da sustentabilidade, ao contrário do uso por alguns políticos e tecnocratas ultrapassados, não pode ser visto como um estreito canal de crescimento econômico, de acumulação de bens. Mas sim como um ideal ético que contrapõe a sobrevivência da vida no planeta à manutenção dos privilégios de uma camada estrita da população, posicionada do topo da pirâmide e responsável pela maior parte do consumo.

A transição para a sustentabilidade é, sobretudo, uma mudança ética. Mudança na percepção do valor dos recursos naturais em si e suas funções de mantenedores da vida, e não apenas na conversão destes recursos em “comodities” para alimentar os modelos de desenvolvimento tradicionais, predadores e excludentes.

Como ideal ético, podemos associar o paradigma da sustentabilidade, de acordo com o conceito da Comissão Brudtland, a seis critérios fundamentais:

  • visão holística do desenvolvimento
  • integração entre conservação e desenvolvimento
  • satisfação das necessidades humanas básicas para todos
  • eqüidade e justiça social
  • assegurar a autodeterminação e a diversidade cultural
  • garantir a manutenção da integridade ecológica

O processo de transição citado tem tido reconhecidamente lento, possivelmente em função de o termo sustentabilidade  estar sendo utilizado não como um princípio ético e sim como retórica em muitos casos.

Mesmo após 20 anos do lançamento do conceito, em 1987, a evolução, em muitos momentos, é contaminada por sofismas e discurso duplo, resultando até os dias de hoje em uma perda da diversidade dos recursos naturais, tendo como maior exemplo a extinção de espécies.

O reordenamento do rumo do desenvolvimento local e global não é uma tarefa apenas técnica ou financeira. É, acima de tudo, uma monumental transição cultural e adaptativa, na qual os dilemas e desafios serão enfrentados e resolvidos com mudança de comportamento e atitude de todos.

O desenvolvimento sustentável impõe limites e restrições. Já estamos vivemos em um mundo com restrição à emissão de carbono, restrições ao consumo de água, limites à pesca e ao consumo de bens e serviços.

Sob a égide da ética para a sustentabilidade, o desenvolvimento deverá rever o próprio conceito de lucro – naturalmente rever, não acabar. Lucro terá que considerar o retorno do investimento ($), assim como um (S) relacionado com a sobrevivência e funcionamento das estruturas dos sistemas naturais e das estruturas dos sistemas sociais, incluindo aí a manutenção da democracia, respeito às leis, entre outros.

É seguramente correto afirmar que passos importantes foram dados no caminho do desenvolvimento sustentável nestas duas décadas. Os bons exemplos, no entanto, não foram suficientes para iniciar a transição em direção a uma sociedade global sustentável. Ou seja, as tendências continuam preocupantes.

Há pelo menos três questões críticas. Na primeira, a escala de tempo se torna decisiva para a transição. O segundo ponto refere-se à necessidade premente de dar escala regional, inicialmente, e global no futuro aos bons exemplos hoje já existentes. E, finalmente, traduzir os discursos e filosofias, com base ética, em resultados consistentes que revertam as tendências.

O percurso sustentável determina uma atitude orgânica, holística e participativa, montando um cenário em que fatos e valores estão intrinsecamente relacionados com a ética integrada ao cotidiano. O percurso determina ainda uma relação sinérgica dos seres humanos entre si e com os ecossistemas, assim como a incorporação de um conhecimento indivisível, empírico e intuitivo com relações não lineares de causa e efeito, características que perdemos ao longo dos anos de “progresso”. A natureza deve ser entendida como um conjunto de sistemas inter-relacionados, no qual o todo deve ser maior que a soma das partes. Devemos incluir outros ingredientes fundamentais: descentralização do poder, transdisciplinariedade, cooperação e limite tecnológico definido pela sustentabilidade do planeta.

A ética da sustentabilidade é subversiva. Impõe um processo de transformação urgente e radical, subvertendo a ordem econômica, social e ambiental hoje prevalente. Não há outro caminho se quisermos deixar um legado às futuras gerações de harmonia entre oportunidades, qualidade de vida e sobrevivência da biodiversidade.

Categorias: Imprensa, Legislação.
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