publicado em 08/07/2005

Gestão Ambiental em Concessionários de Veículos e Implementos

Por Luiz Henrique Lopes Vilas - Coordenador da Câmara de Meio Ambiente da ABRADIR(Associação Brasileira dos Distribuidores Randon)

O setor automotivo preocupa-se cada vez mais com as questões ambientais , interligadas aos seus processos produtivos e de sua cadeia de distribuição mundial . Esta tendência é marcante nas empresas montadoras, expostas as pressões da legislação ambiental em vigor e nas fabricas de autopeças e concessionárias autorizadas, pelas exigências das próprias montadoras, criando-se, assim, uma necessidade de gestão do setor sob a ótica ambientalmente correta.

Segundo dados da indústria automobilística brasileira, o Brasil ocupa o 10º lugar na frota mundial possuindo mais de 30 milhões de veículos em circulação, com idade média de 9,5 anos e coeficiente de 8,6 habitantes por veículo. São mais de 1.580.000 km de malha rodoviária, sendo que 164.247 Km estão pavimentados. Em termos de setor, são mais de 30 plantas industriais de montadoras instaladas no país e 500 fabricantes de autopeças contando com o apoio de mais de 4.580 concessionários de marcas, que efetivaram um total de vendas de 1,4 milhões de unidades no ano de 2004 , o que representa aproximadamente 5% do PIB industrial brasileiro ( www.anfavea.com.br ).

A principal característica da indústria automotiva é a amplitude do raio de ativações econômicas e sociais entre si e nos segmentos de fornecedores, distribuidores e afins, solicitando, por exemplo, as melhores práticas em gestão, processos, produtos, relações com trabalhadores e consumidores.

Dentro desse crescente segmento de mercado, os cuidados com o meio ambiente deixam de ser uma fonte de despesas para tornarem-se uma fonte geradora de lucros. Sob a ótica da gestão ambiental, aquilo que antes era um tema sem importância para as empresas – água, ar ,energia, resíduos em geral e sucatas – transformou-se em uma oportunidade para reduzir, reutilizar e reciclar, agregando valores sustentáveis para as empresas que possuem um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) em funcionamento.

Outros fatores que certamente influenciam as empresas para adoção de posturas ambientalmente responsáveis são: percepção das vantagens em termos competitivos; melhoria na imagem perante a sociedade; redução de custos dos seus processos produtivos; adoção de programas de gestão específicos – como a racionalização no consumo de recursos e a minimização de resíduos – voltados à solução de problemas decorrentes dos impactos ambientais desses processos, gerando assim uma ação com resultados ecoeficientes (Almeida,2002).

O Sistema de Gestão Ambiental (SGA) em concessionárias de veículos é o foco principal do projeto que está sendo realizado em parceria com o Sincodiv-MG , Fenabrave , Randon S/A , ABRADIR (Associação Brasileira dos Distribuidores Randon) e o CEATRAN (Centro de Engenharia Aeronáutica, Automotiva , de Trânsito e Transporte).   

No Brasil, trata-se de um instrumento original para lidar com um setor de grande importância sócio-econômica. Sendo assim, será elaborada uma metodologia específica destinada a abordar o problema num contexto ambiental.

O que torna as montadoras e suas concessionárias objeto principal de estudo neste artigo é a constatação do crescimento de negócios ligados às questões ambientais. A gestão integrada do negócio comprometido com a questão ambiental passa a atender, de maneira ampla, os anseios dos consumidores que procuram manter relações comerciais com empresas que oferecem produtos e serviços que poluem menos e, conseqüentemente, agridem menos o nosso meio ambiente.

Em um setor intimamente relacionado ao desenvolvimento do País, observa-se uma relevante e crescente preocupação do setor automotivo em atingir um estágio de alto comprometimento com o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Neste sentido, é evidente um maior compromisso das montadoras no gerenciamento de todo o ciclo de vida do produto, inclusive no atendimento ao pós-venda, que é feito pelas concessionárias das marcas e que lidam diretamente com os impactos ambientais gerados pela manutenção dos veículos ao longo de sua vida útil.

Outro fator que merece destaque é a futura implantação da Inspeção Técnica Veicular (ITV), prevista pelo Código de Trânsito Brasileiro de 1998, que será anual e obrigatória para todos os veículos com mais de dois anos em circulação no Brasil. Ela tende a diminuir em 18% o risco de acidentes, como já foi registrado em outros países, além de representar uma economia de até 1,2 bilhão de litros no consumo de combustível , reduzindo em até 30% a emissão de monóxido de carbono, trazendo reflexos significativos para a sociedade e o meio ambiente.

Todas as peças e partes condenadas na inspeção veicular deverão ser substituídas ou reparadas, e seus resíduos deverão ter a destinação adequada para sua categoria (baterias, óleos, graxas, filtros, pneus, vidros, plásticos, produtos químicos , resíduos em geral, carcaças de veículos, peças sem uso, etc).

Novas legislações vêm regulando o descarte desses materiais e responsabilizando os produtores pela destinação final correta dos resíduos. Por meio da ativação da ITV, será possível viabilizar propostas como as de renovação e reciclagem de veículos (Projeto de Lei 1.016/99), que se encontram em votação na Câmara Federal. Com a implementação da ITV, haverá redução não só do custo social com acidentes, como também das despesas com danos ambientais. Destacam-se ainda efeitos positivos como a inibição dos casos de clonagem; a moralização do mercado de veículos usados; a geração de mais de 100.000 empregos diretos e indiretos; melhoria no fluxo e na redução dos custos de transporte ; aquecimento no mercado de pós-venda (peças e serviços) das concessionárias ( Informativo Via Rede Sincodiv–MG ,nº 50 julho de 2004).

O fato decorrente desse cenário é que haverá um crescimento substancial na demanda de reposição de autopeças e manutenção veicular, tornando-se imperativo a criação de uma metodologia de gestão ambiental, até então inexistente em nosso país, para as concessionárias de veículos e implementos, que deverão respeitar as formas corretas de disposição e descarte dos resíduos gerados tanto pela reposição quanto pela reparação de veículos em condições inadequadas de uso. É com base nesta necessidade que serão elaborados tanto os instrumentos de avaliação quanto a proposta final de um Sistema de Gestão Ambiental.

Alguns requisitos ambientais são cumpridos meramente pela imposição das leis existentes, outros por representarem fatores competitivos, que podem antecipar um padrão de consumo sustentável, apontando uma tendência de se imporem restrições ambientais desde às concessionárias , montadoras e fornecedores de autopeças que industrializam os recursos naturais até às empresas de logística, armazenagem e transporte de bens, insumos e produtos acabados.

Montadoras e concessionárias que desenvolverem soluções inteligentes e sincronizadas para superarem problemas ambientais terão certamente espaço para apresentar novas idéias.

Um dos resultados mais importantes a serem obtidos por este estudo é a possibilidade de indicar a operacionalização, em curto prazo, de uma nova estratégia de gestão ambiental baseada em padrões pesquisados, capazes de orientar as concessionárias de veículos e implementos para o novo cenário que se anuncia com o crescente rigor da legislação ambiental e o início da Inspeção Técnica Veicular (ITV).

Trata-se de uma estratégia eco eficiente de educação, controle e monitoramento, a partir do conhecimento preciso do sistema de gestão ambiental (SGA) implantado pelas montadoras, assim como de ações locais ambientalmente corretas praticadas pelas concessionárias.

A difusão dos resultados do estudo terá um papel fundamental na aplicação da estratégia de gestão ambiental preconizada.

De fato, as soluções encontradas agregarão práticas eco eficientes às teorias até então vigentes, amplamente difundidas pela mídia, criando a operacionalização de um Sistema de Gestão Ambiental em concessionárias de veículos e implementos.

Categorias: Gestão, Imprensa.
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