publicado em 04/07/2008
Por Fernando Almeida - presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e professor da UFRJ
“Os 10% dos brasileiros mais ricos detêm 50% do PIB, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 1% da riqueza nacional.”
SustainAbility
A constatação inserida no mais recente artigo da SustainAbility serve como um novo alerta para que a sociedade brasileira encontre um modelo de desenvolvimento capaz de contemplar de forma articulada e integrada as demandas econômicas, sociais e ambientais. Por razões éticas e por imposições do próprio mercado, empresas instaladas no Brasil com visão de futuro caminham nessa direção.
Contudo, as recentes e cada vez mais freqüentes invasões de empresas no campo, promovidas por líderes do MST e de seu braço internacional, a Via Campesina, refletem, sob todos os aspectos, uma visão distorcida demonstrada por duas entidades constituídas, a princípio, para defender os interesses de uma grande parcela da população.
Institucionalmente, as ações de vandalismo representam um atentado contra a democracia, até onde se sabe a forma de organização política mais próxima do ideal, na qual todos os segmentos da sociedade têm representação assegurada sob a regência de um único arcabouço legal, proposto, discutido e aprovado coletivamente.
Econômica e socialmente, a destruição de unidades produtivas constitui-se, na verdade, em criar um ambiente de instabilidade, inibindo novos empreendimentos, com o conseqüente impacto na geração de emprego e de renda para investimentos públicos. As ações anacrônicas do MST contribuem com toda certeza para desestimular investimentos do capital produtivo no Brasil. Estamos em 45º lugar entre 82 países no ranking de ambiente favorável de negócios, segundo o mais recentemente levantamento divulgado pela revista “The Economist”.
A Aracruz, que teve seu laboratório e viveiros de mudas no Rio Grande do Sul invadidos e destruídos no dia 8 de março último, emprega hoje 10 mil trabalhadores brasileiros. Seu investimento supera os US$ 4 bilhões e a empresa registra uma taxa de crescimento anual em torno de 10%. A Syngenta, vítima da ação do mesmo grupo, tem instalações em 90 países e foi a primeira empresa do Brasil a receber o certificado de qualidade em biossegurança.
A Vale do Rio Doce, reconhecida por suas ações voltadas na direção da inclusão social e da responsabilidade ambiental, também tem enfrentado situações semelhantes. E mais recentemente, para lembrar os dez anos do massacre de militantes do MST em Eldorado dos Carajás, 200 ativistas ocuparam as instalações da Embrapa, no Paraná, como se dirigentes e técnicos de uma instituição governamental de excelência na área de pesquisa agropecuária tivessem alguma responsabilidade pela execução das vítimas e pela inadmissível impunidade dos criminosos.
Do ponto de vista ambiental, destruir centros de pesquisas de melhoramento de sementes para reflorestamento significa retrocesso. As florestas plantadas têm sido poderoso instrumento de recuperação dos recursos naturais, seja pela regulação do clima, via seqüestro de CO2, seja pela redução do impacto em matas nativas. Cultivadas em áreas degradas, as florestas plantadas contemplam ainda uma cota de recuperação e/ou manutenção de floresta primitiva.
As empresas que buscam caminhos para alcançar um novo modelo de desenvolvimento preconizam a construção do mais importante pilar político da sustentabilidade por meio de amplo e transparente entendimento com governos e sociedade civil organizada, onde não se inclui os responsáveis por invasões e destruições de propriedades públicas e privadas.
O governo e a Justiça devem cumprir o seu papel, punindo na forma da lei atos de vandalismo. É o mínimo que se espera, em um Brasil que opere dentro do pleno funcionamento de instituições democráticas, no qual ações violentas, de negra memória do período autoritário, não têm espaço na sociedade atual.
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