publicado em 24/07/2012
Por Marina Grossi (*)
A proposta de tornar obrigatória a publicação de relatórios de sustentabilidade pelas grandes empresas, públicas e privadas, é o primeiro passo para a inevitável regulação do mercado, no Brasil e no mundo. De forma tímida, e com conhecimento técnico ainda incipiente, a prática de publicar relatórios de sustentabilidadeempresariais teve início há pouco mais de 10 anos. Na época, foi interpretada %u2014 muitas vezes com razão %u2014 como mais uma jogada de marketing do que, de fato, uma tentativa da empresa de conhecer e apresentar processos de sustentabilidade.
Com o passar do tempo, as metodologias de coleta de informações e aferição de resultados se aperfeiçoaram e as empresas, assim como a sociedade em geral, passaram a entender melhor o valor dessas publicações. Hoje, embora estejamos longe de um patamar ideal, os relatórios conquistaram maior credibilidade e reputação.
Além de estreitar a comunicação com seu público, esse tipo de trabalho induz a autoanálise da empresa. A proposta é conhecer melhor os processos e fazer um diagnóstico sobre os impactos sociais e ambientais, positivos ou negativos, de uma atividade econômica no seu cenário de atuação.
Com essa ferramenta, a empresa aprofunda o conhecimento sobre suas ações e pode gerenciar melhor os projetos em médio e longo prazos, minimizando ou potencializando impactos, reduzindo custos e buscando mais eficiência; enfim, monitorando melhor os objetivos relacionados à sustentabilidade. Das 74 grandes corporações associadas ao Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável(CEBDS), por exemplo, a maioria publica voluntariamente relatórios anuais, dando preferência à metodologia do Global Reporting Initiative (GRI), referência mundial e reconhecida tecnicamente como uma das mais avançadas.
Ainda que não seja o único padrão aceito para relatórios de sustentabilidade, o GRI é mais popular por ser considerado o mais prático na identificação de informações para o público em geral. De 2009 para 2010, o número de relatórios realizados no país com base nesse modelo saltou de 80 para 134, um crescimento de 68%. Na média global, esse acréscimo foi de apenas 22%. No ranking dos países que mais publicam, o Brasil está bem posicionado. É hoje o terceiro em número de empresas utilizam o GRI.
As companhias sediadas no Brasil estão atrás apenas daquelas com base nos Estados Unidos (10%) e na Espanha (9%). Contudo, temos muito a avançar no contexto mais amplo do setor empresarial brasileiro. Entre as 533 empresas listadas na Bovespa, por exemplo, apenas 56 publicam relatórios de sustentabilidade, um percentual de 10,5%.
Temos a convicção de que o sucesso de uma empresa que direciona sua estratégia de negócios para asustentabilidade é diretamente proporcional ao seu grau de transparência em divulgar indicadores socioambientais.
Por isso, o CEBDS encaminhou à presidente Dilma Rousseff uma carta de recomendação para que o governo brasileiro edite uma lei que torne obrigatória a publicação de relatórios de sustentabilidade. Se a sugestão for aceita, o país iniciará processo multiplicador muito forte.
O peso das grandes empresas na cadeia de valor vai disseminar essa prática entre as fornecedoras, proporcionando benefícios a uma vasta rede, que inclui empresas de médio e pequeno porte. Para reforçar essa tendência, também sugerimos ao governo federal a adoção de medidas de estímulo a essa outra gama de empresas, para que elas também comecem a fazer relatórios. Ao criar normas legais para que todas as empresas sigam o exemplo das corporações de vanguarda do país, o governo estará pavimentando o caminho para a fusão dos relatórios financeiros e socioambientais, integrando assim formalmente os três pilares da sustentabilidade (ambiental, social e econômico).
*Marina Grossi é presidente executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

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