publicado em 16/07/2012
Artigo publicado no site da revista Época, no dia 12 de junho de 2012
Por Marina Grossi (*)
Durante visita ao Brasil, em março, o secretário-geral para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), Sha Zukang, fez um alerta demonstrando muita preocupação com o ritmo das negociações internacionais: “Nosso trabalho não é falar, mas agir. Não percamos mais tempo em conversas...”
A advertência, mais endereçada ao setor governamental, parece não ter surtido o efeito desejado, dada a dificuldade dos mais de 190 países de chegar a um acordo para o texto-base a ser votado e assinado pelos chefes de estado presentes à Conferência no Rio de Janeiro.
A preocupação de Zukang faz sentido. O alerta significa que a fase da sensibilização, desencadeada a partir da Rio 92, ficou para trás. A validade das convenções lançadas há 20 anos – tratando dos grandes temas como clima e biodiversidade – é incontestável. Assim como os avanços institucionais alcançados nessas duas décadas. Contudo, é preciso admitir que, apesar disso, não fomos capazes de alterar substancialmente as curvas da degradação ambiental e da pobreza.
Diante da histórica dificuldade da diplomacia mundial em chegar a um consenso, especialmente quando se trata de temas polêmicos e antagônicos entre as nações, está cada vez mais evidente a existência de dois mundos institucionais. O mundo político se move mais lentamente, enquanto o mundo liderado por empresas e organizações sociais, é mais ágil e tenta, de forma ainda desestruturada, trilhar o rumo do desenvolvimento sustentável.
De todos os setores sociais, o empresarial foi o que mais evoluiu nesses últimos anos. De vilãs, atacadas impiedosamente pelo movimento ambientalista na Rio 92, as empresas posicionam-se com a possibilidade de se tornarem protagonistas no processo de construção do novo modelo de desenvolvimento.
Após a Rio 92, líderes empresariais de vanguarda fundaram o WBCSD (sigla em inglês do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável) e dele surgiram conselhos nacionais instalados em todos os continentes, entre eles o CEBDS. As empresas, nos anos 90, passaram a participar das conferências globais sobre meio ambiente e desenvolvimento e, no final daquela década, foi lançado com sucesso o Dow Jones Sustainability Index.
A partir do novo milênio, a movimentação das empresas em direção à sustentabilidade foi ainda mais efetiva – lançamento das diretrizes do GRI (Global Reporting Iniciative) e UN Global Compact, Comitê Brasileiro do Pacto Global (CBPG) e Índice de Sustentabilidade Empresarial BM&F Bovespa, além do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo e do Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção. No decorrer desses últimos anos, as empresas passaram a adotar, a cada ano e com mais frequência, metodologias de gestão de riscos ambientais, sociais e econômicos; práticas de ecoeficiência; e mensuração de impacto e dependência do meio ambiente. O número de empresas que adotaram o GHG Protocol, ferramenta que mede as emissões de CO2, por exemplo, saltou de 20 para mais de 100 entre 2008 e 2011.
Toda essa evolução, contudo, não é suficiente. Temos agora o desafio de dar escala às boas práticas. Caso contrário, as estatísticas se moverão muito lentamente. Para reverter o cenário atual, garantindo com segurança a transição para um mundo sustentável, torna-se imprescindível que os mundos político e real se unam e passem atuar de forma articulada. Nesses últimos 20 anos, aprendemos o que deve ser feito.
*Marina Grossi é economista e preside o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010

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