publicado em 04/07/2008
Por Fernando Almeida - presidente-executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)
Os dilemas contidos na relação do lucro no contexto da sustentabilidade nos levam de imediato a uma pergunta: é possível implementar, mesmo que lentamente, o desenvolvimento sustentável com a visão e realização dos atuais níveis de lucro nos modelos vigentes? Acredito que não. E explico por quê.
Para se adaptarem ao modelo de desenvolvimento preconizado há 20 anos pela Comissão Brudtland, a visão e realização de lucro que considerar, intrinsecamente, a perenidade dos recursos naturais e seus serviços ambientais, assim como a estabilidade política e democrática. No viés ético da sustentabilidade, a equação do lucro deve incorporar o “S” de sobrevivência latu senso como nova variável: L= $ + S.
Naturalmente, a transição do modelo de negócios pressupõe que os padrões de desenvolvimento, definidos por políticas públicas, também estejam afinados com as premissas dessa nova lógica da sobrevivência.
Esclarecendo melhor. A atividade da pesca mundial, puramente extrativa, tem seus dias contados: em 2040, aproximadamente, este essencial serviço ambiental se esgota em função de uma extração predatória sem precedentes no topo da cadeia alimentar nos oceanos. Já temos alguns exemplos concretos, como o desaparecimento, desde a década de 70, do bacalhau na região de Newsfoundland no Canadá, por insensibilidade e incompetência do modelo de negócio local, tecnicamente conhecido como sobrepesca.
Não seria necessário ir tão longe. O desaparecimento da sardinha na costa do Rio de Janeiro induziu o mesmo fim trágico da indústria de beneficiamento de pescado no estado, causando impacto extramente negativo na região de São Gonçalo, que registra um dos mais baixos IDH do país.
Modelos de negócios vestidos de antolhos, visando unicamente o lucro econômico e retroalimentando-se, mutuamente, por políticas públicas incompetentes, induzem, inexoravelmente, a degradação socioeconômica e ambiental de áreas urbanas que já tiveram seu apogeu. Há mais ou menos 50 anos, Benfica, Penha e demais bairros da Zona da Leopoldina carioca, desfrutavam o status de área industrial do Rio. Hoje, concentram estruturas civis fantasmas e índices de violência assustadores, ao ponto de ser identificada como “Faixa de Gaza”.
A filantropia não resolve. Não capacita para a sobrevivência, não pereniza a atividade econômica nem a cidadania. Políticas públicas neste viés levam à acomodação. Naturalmente, ninguém pode ser contra o combate a fome com medidas de curto prazo. Contudo, no médio prazo, é muito mais eficaz investir em educação para a produção do que criar um mercado de venda de eletrodomésticos artificial, que, além de dificultar o caráter transformador da sociedade, terá seu prestígio popular finito.
No setor privado, há muito nos dedicamos à responsabilidade social corporativa, um engenhoso conceito formulado no final da década de 90 para se contrapor à filantropia. Contudo, ainda não conseguimos dar uma guinada significativa nos índices de IDH. Relatórios são produzidos aos milhares, com transformações, no máximo, locais. Não temos obtido sucesso em inverter as tendências de degradação, tanto dos indicadores sociais, quanto ambientais.
Diante do cenário construído até o momento, não há dúvidas de que dificilmente nós, humanidade, atingiremos os Objetivos do Milênio em 2015, sobretudo nos itens mais complexos, como erradicação da pobreza, mortalidade infantil, saúde, saneamento etc.
Salvo raras exceções, que confirmam a regra, os bons exemplos não alcançaram sequer escala regional. É o caso da família Grameen em Bangladesh, que atua de forma bastante produtiva na dimensão social na área de financiamento e comunicação. Os modelos aplicados no restante do mundo são distintos de uma maneira geral.
Quando unimos o fator tempo e o senso de urgência a uma análise honesta e sensata tanto dos modelos de negócios hoje praticados como das políticas públicas implantadas, concluímos que há necessidade premente de uma ruptura planejada.
Estratégico para a sobrevivência da empresa, a implementação desse planejamento começa pela revisão da noção de lucro, aqui, sim, baseado na ética da sustentabilidade.
Percentual, valor, formas e função da cada empresa serão avaliados pelo resultado de replicar regionalmente e globalmente ao que se mostrou viável em escala-piloto. Vale quando for auferida a reversão das tendências de degradação ambiental e miséria em escala, no mínimo regional, transformando-se em referência replicável.
No âmbito das empresas, a liderança indutora da mudança virá – tenho esperança – daquelas que melhor se apresentam na Bolsa de Valores de São Paulo. Não temos tempo a perder.
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